e publicado em http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA3.htm
Anarquistas, em geral podem ser caracterizados por algumas idéias chave, podem ser agrupados em diversas categorias, dependendo da organização econômica a qual consideram ser a mais determinante para a liberdade humana. Contudo, todos os tipos de anarquistas possuem uma base comum. Segundo Rudolf Rocker:
«De acordo com os fundadores do Socialismo, os anarquistas almejam a abolição de todos os monopólios econômicos, e a propriedade coletiva da terra e de todos os meios de produção, para que estejam a disposição de todos sem distinção; a liberdade pessoal e social é concebível apenas em uma base de igualdade econômica para todos. Dentro do movimento socialista os anarquistas adotam o ponto de vista de que a guerra contra o capitalismo precisa ser ao mesmo tempo uma guerra contra todas as instituições que representam alguma forma de poder político, pois a história da exploração econômica sempre andou lado a lado com a opressão política e social. A exploração do homem pelo homem e a dominação do homem sobre o homem são inseparáveis, uma não existe sem a outra.» [Anarcho-Syndicalism, pp. 17-18]
Estes são os pontos em que os anarquistas concordam. As diferenças mais visíveis estão entre os anarquistas «individualistas»e»sociais», embora a idealização das concepções econômicas de cada um não sejam mutuamente exclusivas. Dos dois, os anarquistas sociais (comunistas-anarquistas, anarco-sindicalistas e outros) sempre se constituiram na vasta maioria, sendo que o anarquismo individual ficou mais restrito aos Estados Unidos. Nesta seção mostramos as diferenças que permeiam o movimento anarquista. Para deixar claro, tanto o anarquismo social como o anarquismo individual ambos se opõem ao estado e ao capitalismo, a discordancia se situa na natureza da futura sociedade livre (e em como ela será alcançada)
Resumidamente, os anarquistas sociais preferem soluções comunais para os problemas sociais e visões comunais de uma sociedade ideal (isto é, uma sociedade que protege e encoraja a liberdade dos indivíduos). Anarquistas individualistas, como o nome sugere, preferem soluções individuais e tem uma visão mais individualista dessa sociedade. Contudo, precisamos não esquecer que tais diferenças de ambas as escolas não ocultam o que elas tem em comum, principalmente o desejo de maximizar a liberdade individual e acabar com a exploração, o dominio estatal e o capitalistado.
Além dessa discordância, os anarquistas também discordam em assuntos como sindicalismo, pacifismo, «estilo de vida», direitos animais e outras idéias, mas estes pontos, embora importantes, são apenas diferentes aspectos do anarquismo. Neste contexto de idéias chaves, o movimento anarquista (como a própria vida) está em constante estado de mudança, discussão e pensamento-o que é de se esperar em um movimento cujo valor mais alto é a liberdade.
Colocando nossas cartas na mesa, os escritores deste FAQ consideram-se a si mesmos como da parte «social» do anarquismo. Isto não significa que nós desprezamos as muitas importantes idéias associadas com anarquismo individualista, apenas achamos que o anarquismo social é mais apropriado para a sociedade moderna, e que ele cria uma forte base para a liberdade individual, e que mais reflete o tipo de sociedade que nós gostaríamos de viver.
A.3.1 Quais são as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais?
Existe uma tendência ao individualismo em ambos os campos uma vez que ambos rejeitam qualquer tipo de estado, as diferenças entre individualistas e anarquistas sociais não são muito grandes. Ambos são anti-estado, anti-autoritarios e anti-capitalistas. As maiores diferenças estão na forma.
A primeira linha de pensamento refere-se ao significado da ação no aqui e no agora (e quanto à maneira em que a anarquia será aplicada).
Individualistas geralmente preferem educação e a criação de instituições alternativas, como fundos de ajuda mútua, sindicatos, comunas, etc. Geralmente defendem greves e outras formas não violentas de protesto social (como boicotes, não pagamento de impostos e coisas assim).
Tais atividades, argumentam, ajudarão a presente sociedade gradualmente a se afastar de qualquer sistema de governo em direção a um auto-governo anarquista. Inicialmente evolucionistas, não revolucionários, os anarquistas sociais passaram a adotar táticas de ação direta pra criar situações revolucionárias. Eles consideravam a revolução conflitante com os princípios anarquistas por envolver a expropriação da propriedade capitalista e, portanto, meios autoritários.
Depois dariam de volta à sociedade toda a riqueza subtraída dessa sociedade pela propriedade dos meios de produção em um novo e alternativo sistema econômico, baseado em fundos de apoio mútuo [mutual banks] e cooperativas. Dessa forma, seria efetuada uma «liquidação social» com o anarquismo sendo implantado pela reforma e não pela expropriação.
A maioria dos anarquistas sociais reconhecem a necessidade da educação e de criar alternativas (como sindicatos libertários), mas qualquer desacordo nesse campo por si só é suficiente. Eles não acreditam que o capitalismo possa ser reformado peça por peça até chegar no anarquismo, embora eles não ignorem a importancia das reformas para a luta social incremente as tendências sociais sobre o capitalismo. Isso não significa que o pensamento revolucionário esteja em contradição com os princípios anarquistas, da mesma forma que não é autoritarismo destruir a autoridade (seja ela estatal ou capitalista). A expropriação da classe capitalista e a destruição do estado pela revolução social é um ato libertário, não autoritarias, ato tão natural quanto se opor àqueles que governam e exploram a vasta maioria.
Com efeito, os anarquistas sociais são em geral evolucionistas e revolucionários, tentando fortalecer as tendências libertárias dentro do capitalismo ao mesmo tempo em que tentam aboli-lo pela revolução social. Embora alguns anarquistas sociais sejam exclusivamente evolucionistas, este fato não se constitui por si só na diferença mais importante entre anarquistas e individualistas.
A segunda maior diferença relaciona-se à forma como a economia anarquista é proposta. Individualistas preferem um sistema de distribuição [com base no mercado] voltado para o sistema anarquista [com base na necessidade] social.
Ambos concordam que o atual sistema de direitos de propriedade capitalista precisa ser abolido e o direito de uso precisa substituir os direitos de propriedade (isto é, a abolição do aluguel, do juro e dos lucros, da «usura», o termo preferido pelos anarquistas individualistas para esta maldita trindade).
Com efeito, ambas as escolas se baseiam na obra clássica de Proudhon Que é Propriedade? e argumentam que a posse substitui a propriedade em uma sociedade livre (veja seção B.3 para uma discussão de pontos de vista anarquistas sobre a propriedade). Diante da bandeira dos direitos de uso, as duas escolas do anarquismo propõem sistemas diferentes. O anarquismo social em geral defende a autogestão comunal (ou social) e uso. Isto envolveria autogestão social dos meios de produção e distribuição, com possessões pessoais significando coisas de uso, mas não aquilo que foi usado para criá-las («seu relógio é seu relógio, mas a fábrica de relógios pertence ao povo.» [Alexander Berkman, The ABC of Anarchism, p. 68])
«O uso efetivo,» argumenta Berkman, «será considerado o único documento-não apenas para a autogestão mas também para a posse. A organização de carvão mineral, por exemplo, estará a cargo dos mineiros de carvão, não como proprietários mas como agentes operacionais . . . A posse coletiva, administrada cooperativamente no interesse da comunidade, tomará o lugar da gestão privada conduzida pelo lucro.» [Op. Cit., p. 69]
Este sistema seria baseado em trabalhadores autogestionados em seu trabalho e (para a maioria dos anarquistas sociais) a libre distribuição do fruto do trabalho (isto é, um sistema econômico sem dinheiro). Alguns anarquistas sociais, como os mutualistas, são contra esse sistema de comunismo libertário (ou livre), mas, em geral, a grande maioria dos anarquistas sociais almejam o fim do dinheiro e, consequentemente, da compra e da venda.
Em contraste, os anarquistas individualistas acham que esse sistema de direitos de usufruto incluem o produto de seu trabalho. Defendendo uma gestão social, anarquistas individualistas propõem um sistema baseado no mercado em que trabalhadores possam dispor de seus próprios meios de produção e trocar o produto de seu trabalho livremente com outros trabalhadores. Eles argumentam que isto não se trata de capitalismo, mas do verdadeiro mercado livre.
Com o tempo, os capitalistas através do estado distorceram o mercado pra criar e proteger seu poder econômico e social (disciplina do mercado para as classes trabalhadoras, em outras palavras, ajuda estatal para as classes dominantes). Este estado criou monopólios (de dinheiro, terras, tarifas e patentes) e a proteção dos direitos de propriedade capitalista pelo estado que constituem o suporte das desigualdades econômicas e da explortação.
Com a abolição do governo, uma real livre competição resultaria e significaria o fim do capitalismo e da exploração capitalista (veja o ensaio de Benjamim tucker State Socialism and Anarchism como um excelente sumário deste argumento). Os anarquistas individualistas argumentam que os meios de produção (terras trabalhadas) são o produto do trabalho individual e apenas eles estão habilitados a vender os meios de produção que eles usam, se desejarem. Contudo, eles rejeitam o direito de propriedade capitalista e defendem um sistema de «ocupação pelo uso». Se os meios de produção, como a terra, não estão sendo usados, passarão a ser de propriedade comunal a disposição dos interessados para uso. Eles imaginam este sistema, chamado de mutualismo, como o consequencia do controle dos trabalhadores na produção e o fim da exploração capitalista e da usura.
Esta segunda diferença é a mais importante. Os individualistas temem ser forçados a participar de uma comunidade e com isso perder sua liberdade (incluindo a liberdade de trocar livremente seus produtos uns com os outros).
Max Stirner colocou sua posição com clareza quando argumentou que «O comunismo, pela abolição de toda propriedade pessoal, me tornará ainda mais dependente dos outros, tanto no geral como no coletivo. . .», uma condição que vai tolher a liberdade de meus movimentos, um poder invisível sobre mim. O comunismo revolta pela pressão que exerce contra a propriedade individual, mas muito mais horrível é este poder colocado nas mãos da coletividade.» [The Ego and Its Own, p. 257]
Proudhon também argumentou contra o comunismo, afirmando que a comunidade torna-se o proprietário sob o comunismo e que tanto o capitalismo como o comunismo são baseados na propriedade e portanto na autoridade (veja a seção «Características do comunismo e da propriedade» em Que é Propriedade?)Tanto os anarquistas individualistas argumentam que a gestão social coloca a liberdade individual em perigo como uma forma de comunismo que submete o indivíduo à sociedade ou à comuna.
Eles temem que, através de uma forma de moralidade individual, a socialização neutralize o controle dos trabalhadores, passando essa «sociedade» a lhes dar órdens sobre o que produzir e o que fazer com o produto de seu trabalho. De qualquer forma, isso reforça o argumento de que o comunismo ou a gestão social em geral seria muito parecido com o capitalismo, atraves da exploração e da autoridade dos gestores repassados àquela «sociedade».
Desnecessário dizer que os anarquistas sociais não concordam com isso. Eles argumentam que os comentários de Stirner e Proudhon estão totalmente corretos-mas apenas no que diz respeito ao comunismo autoritário.
Conforme Kropotkin argumenta, «antes e em 1848, a teoria [do comunismo] foi colocada em cheque por Proudhon no que diz respeito a seus efeitos sobre a liberdade. A velha idéia de Comunismo como sendo um amontoado de comunidades monásticas sob o governo de velhos ou de homens da ciência. O último vestígio de liberdade e da energia individual seria destruido, se a humanidade se tornasse esse tipo de comunismo.» [Faça você mesmo, p. 98] Kropotkin sempre defendeu o anarco-comunismo tal qual despontou a partir de 1870, é importante destacar que Proudhon e Stirner não podem ser considerados frontalmente contra coisas às quais eles não tinham familiaridade.
Mesmo que se submetesse o individuo à comunidade, os anarquistas sociais argumentam que a autogestão comunal proveria as eventuais necessidades de proteção à liberdade individual em todos os aspectos da vida pela abolição do poder da propriedade privada, em todas suas formas e manifestações. Além do mais, mesmo que fosse abolida toda a «propriedade», o anarco-comunismo reconheceria a importancia da posse e do espaço individual. Tanto que Kropotkin arguia contra formas de comunismo que «Administrar uma comunidade sob o modelo de vida familiar… todos na mesma casa e … forçar seus membros a encontrar-se continuamente com os mesmos ‘irmãos e amigos’… é um erro fundamental pois impõe a todos a ‘grande família’ e não consegue garantir uma maior liberdade, nem um lar para cada indivíduo.»[Small Comunal Experiments and Why They Fail, pp. 8-9] O alvo do anarco-comunismo é, citando o próprio Kropotkin, um lugar onde «os frutos da produção estão a disposição de todos, tendo cada um a liberdade para consumi-los e disponibilizá-los em sua própria casa.» [The Place of Anarchism in the Evolution of Socialist Thougtht, p. 7] — Esse espaço para a expressão individual, tanto no consumo como na produção, tem sido amplamente apoiado por trabalhadores autogestionados. Para o anarquista social, a oposição do anarquista individualista ao comunismo é válida apenas no que diz respeito ao Estado ou ao Comunismo autoritário e ignora a natureza fundamental do anarco-comunismo. Anarco-comunistas não sufocam a individualidade com a comunidade mas pelo contrário usam a comunidade para defender a individualidade. Em vez de a «sociedade» controlar o individuo, o anarco-individualista a protege, o anarquismo socia caracteriza-se pela importancia que dá à individualidade e à expressão individual:
«O anarco-comunismo preserva a mais valorosa de todas as conquistas-a liberdade individual-e mais do que isso, a amplia e dá a ela uma base sólida-liberdade econômica-sem a qual a liberdade política é uma ilusão; ela não pede ao indivíduo para que rejeite deus, a tirania universal, o deus rei, o deus parlamento, para dar a si mesmo um deus mais terrível que seus predecessores-o deus Comunidade, ou abdicar de sua própria independência, de seu futuro, de seus desejos. Pelo contrário, ‘nenuma sociedade é livre enquanto houver um indivíduo que não o seja!. . . ‘» [Op. Cit., pp. 14-15] Acrescente-se a isto que os anarquistas sociais sempre reconheceram a necessidade da coletivização voluntária. Se as pessoas desejam trabalhar para si mesmas, isto não é visto como um problema (veja Kropotkin em A Conquista do Pão, p. 61 e Faça Você Mesmo, pp. 104-5 e Malatesta em Vida e Idéias, p. 99 e p. 103). Para os anarquistas sociais uma associação existe apenas o benefício dos indivíduos que a compõem; estes são os meios pelos quais as pessoas cooperam visando satisfazer as necessidades comuns. Portanto, todos os anarquistas enfatizam a importancia da livre associação como a base de uma sociedade anarquista. Nisto todos concondam com Bakunin:
«Em uma comunidade livre, o coletivismo pode apenas surgir em função da pressão das circunstancias, não da imposição de cima mas pela livre movimentação expontânea de baixo.» [Bakunin e Anarquismo, p. 200]
Se individualistas desejam trabalhar para si mesmos e trocar seus bens uns com os outros, os anarquistas sociais não fazem nenhuma objeção. Uma vez que essas duas formas de anarquismo não são mutuamente exclusivas. Os anarquistas sociais apoiam o direito dos indivíduos não comungarem na comuna enquanto Anarquistas Individualistas e reconhecem o direito desses indivíduos se organizarem entre si em suas associações comunísticas. Contudo, se, em nome da liberdade, um indivíduo exigir direitos de propriedade baseado na exploração do trabalho dos outros, os anarquistas sociais deverão rápidamente se opor a esta tentativa de recriação do estatismo em nome da «liberdade». Anarquistas não respeitam a «liberdade» de ser um governante! Nas palavras de Luigi Galleani:
«No less sophistical is the tendency of those who, under the comfortable cloak of anarchist individualism, would welcome the idea of domination . . . But the heralds of domination presume to practice individualism in the name of their ego, over the obedient, resigned, or inert ego of others.» [The End of Anarchism?, p. 40] Para os anarquistas sociais, a ideia de que os meios de produção possam ser vendidos implica no risco de que a propriedade privada possa ser reintroduzida em uma sociedade anarquista. Em um livre mercado, alguns vingam outros falham. Se os competidores «fracassados» virarem desempregados eles poderiam vender seu trabalho para os «bem sucedidos» para poderem sobreviver. Isto criaria uma relação social de autoritarismo e de dominação via «livre contrato». A obrigatoriedade do cumprimento de tais contratos (ou coisa parecida), em todos seus aspectos, «abriria… o caminho para a reconstrução das bases daquilo que chamamos de Estado» [Peter Kropotkin, Kropotkin’s Revolutionary Pamphlets, p. 297]
Benjamim Tucker, o anarquista mais influenciado pelas idéias do liberalismo e do livre mercado, tambem enfrentou os problemas associados com todas as escolas do individualismo abstrato-particularmente, a aceitação das relações sociais autoritarias como uma expressão de «liberdade». Há uma certa semelhança disto com as relações entre a propriedade e o estado. Tucker argumentava que o estado se caracterizava por dois aspectos: a agressão e «a imposição da autoridade sobre uma determinada área e tudo que diz respeito a ela, é geralmente exercida com um duplo propósito: a mais completa opressão aos opositores e extensão de seus domínios». [Instead of a Book, p. 22] Contudo, os produtores e os fazendeiros também tinham autoridade sobre uma determinada área (a propriedade em questão) e de tudo que estava sobre ela (trabalhadores e feitores), com a diferença que o controle formal das ações dos trabalhadores era regulada por leis estatais. Em outras palavras, a produção individual autogestionária em tais relações sociais é como se fosse um mini-estado, uma vez que origina-se de uma mesma base (o monopólio do poder sobre uma determinada área e sobre aqueles que a utilizam) Os anarquistas sociais argumentam que a aceitação do isolamento dos Anarquistas Individualistas e de suas concepções individualistas de liberdade individual podem desaguar num obstáculo à liberdade individual pela criação de relações sociais que são essencialmente autoritárias e estatistas por natureza. «Os individualistas, argumenta Malatesta, dão uma grande importancia a um conceito abstrato de liberdade e erram quando não levam isso em consideração, esquecendo que o fato da real e concreta liberdade advem da cooperação solidária e voluntária.» [The Anarchist Revolution, p. 16] Esse procedimento coloca o trabalhador num nível e o administrador em outro, o cidadão num nível e o estado em outro, um sob o domínio e sujeição do outro. Da mesma forma o capataz e o fazendeiro. Esse tipo de relacionamento social não é em nada positivo e reproduz outros aspectos do estado. Conforme disse Albert Meltzer, isto pode parecer inóquo mas tem sérias implicações, porque «a escola de Benjamim Tucker-em função de seu individualismo- aceita a necessidade da polícia para reprimir greves tanto quanto para garantir a «liberdade» dos empregados. Coisas como essas são aceitas pelos Individualistas confessos… a necessidade da força policial, de governo, só que a primeira definição de anarquismo é sem governo.» [Anarchism: Arguments For and Against, p. 8] Isto explica em parte porque os anarquistas sociais defendem a gestão social como a melhor maneira de protejer a liberdade individual.
Aceitando a gestão individual este problema pode apenas ser «adiado» pela aceitação, como fez Proudhon (o suporte das idéias econômicas de Tucker), da necessidade de cooperativas para abrir espaços de trabalho que requer mais de um trabalhador. Isto naturalmente complementa seu apoio pela «ocupação e uso» da terra, que efetivamente aboliria os senhores da terra. Apenas quando as pessoas que usam um suporte próprio isto pode fazer com que a gestão individual não resulte em autoridade hierarquica (i.e. estatismo/capitalismo). Esta solução, conforme indicado na seção G é uma das coisas que os Anarquistas Individualistas aprovam. Por exemplo, encontramos Joseph Labadie escrevendo para seu filho aconselhando-o a evitar qualquer forma de «dominação sobre os outros» [citado por Carlotta Abderson, All American Anarchist, p. 222] Como Wm. Gary Kline acertadamente observa, os anarquistas individualistas dos US «fazem suas pontuações a partir de uma sociedade com pleno emprego e com nenhuma disparidade significante na distribuição da riqueza» [The Individualist Anarchists, p. 104] É nesta visão de uma sociedade de pleno emprego que tais idéias se tornam verdadeiramente anarquistas.
Quando os individualistas atacam a «usura», eles não levam em consideração o problema da acumulação do capital, que resulta em uma barreira natural que é a introdução do mercado, dessa forma recriam a usura em novas formas (veja seção C.4 «Por que o mercado foi dominado pelas grandes corporações?») ancorar um «livre mercado» em bancos, como defende Tucker e outros Anarquistas Individualistas, poderia resultar no domínio de alguns grandes bancos, cujo interesse econômico direto em apoiar capitalistas seria maior que simplesmente investir em cooperativas (que lhes dariam mais retorno que as cooperativas). A única solução real para esse problema seria através de uma comunidade autogestionária que administrasse os bancos, como originalmente desejou Proudhon. É a percepção dessa semente de economia capitalista que faz com que os anarquistas sociais rejeitem o anarquismo individualista em favor do comunalismo, da descentralização, e da produção pela livre associação e trabalho cooperativo. (Para mais informações sobre as idéias dos anarquistas individualistas, veja seção G – «O individualismo anarquista é capitalista?»)
A.3.2 Are there different types of social anarchism?
A.3.2 Existem diferentes tipos de anarquistas sociais?
Sim. Os anarquistas sociais tem quatro vertentes maiores-o mutualismo, o coletivismo, o comunismo e o sindicalismo. As diferenças não são grandes pois dizem respeito apenas a diferenças estratégicas. Uma diferença que se destaca é entre os mutualistas e os outros tipos de anarquismo social. O mutualismo é baseado em uma forma de socialismo de mercado-cooperativas de trabalhadores distribuem a produção via um sistema de bancos cumunitários. Essa rede de bancos mútuos seria «formada por toda a comunidade, não para uma especial vantágem de algum indivíduo ou classe, mas para o benefício de todos. . . «[que] não tem outro objetivo. . . a não ser cobrir os riscos e bancar as despesas.[Charles A. Dana, Proudhon and his ‘Bank of the People’, pp. 44-45] Esse sistema poria um fim à exploração capitalista e à opressão «introduzindo o mutualismo no lugar do crédito, o trabalho assumiria um novo aspecto e se tornaria verdadeiramente democrático.» [Op. Cit., p. 45]
A versão anarquista social do mutualismo difere da forma individualista pela comunidade local (ou comuna) ter seus próprios bancos mútuos independente de cooperativas. Isto significa que tais bancos provêem fundos de investimentos diretamente para os cooperados sem intermediários capitalistas. Outra diferença é que alguns anarquistas sociais mutualistas apoiam a criação do que Proudhon chamou de «Federação agro-industrial» como complemento da federação de comunidades libertárias (chamadas por Proudhon de comunas). Esta «confederação. . . teria como objetivo proporcionar segurança recíproca entre o comércio e a indústria» e desenvolvimento em larga escala como rodovias, ferrovias, etc. Com o propósito de «proteger os cidadãos dos estados federados [sic!] dos capitalistas e do feudalismo financeiro, interna e externamente.» Isto porque o «political right requires to be buttressed by economic right.» Dessa forma a federação agro-industrial seria uma ferramenta da natureza anarquista da sociedade contra os efeitos desestabilizantes das mudanças de mercado (que pode gerar variações inadequadas em riqueza e em poder). Tal sistema seria um exemplo prático de solidariedade, como «as indústrias são como irmãs, elas são parte do mesmo corpo; nenhuma sofre sem que a outra sofra também. Seu conjunto forma uma federação, não para serem absorvidas e misturadas, mas para serem ordenadas no sentido de garantir mutuamente as condições necessárias para uma prosperidade comum. . . Uma harmonia que não menospreza sua condição de liberdade; pelo contrário, dá à liberdade mais segurança e força.» [The Principle of Federation, p. 70, p. 67 and p. 72] As outras formas de anarquismo social não dariam este suporte mutualista para o mercado, mesmo as não capitalistas. Segundo eles, a liberdade seria mais servida pela produção comunal e pela troca de informações e produtos livremente entre as cooperativas. Em outras palavras, as outras formas de anarquismo social são baseadas na gestão (comum) ou social através de federações de associações de produtores e comunas em lugar do sistema mutualista de cooperativas individuais.
Nas palavras de Bakunin, a «futura organização social precisa ser construída em bases sólidas, por uma livre associação ou federação de trabalhadores, primeiro em seus sindicatos, depois em suas comunas, regiões, nações e finalmente em uma grande federação, internacional e universal» e «a terra, os instrumentos de trabalho e todo e qualquer capital tornar-se-a propriedade coletiva a disposição da sociedade como um todo para ser utilizada apenas pelos trabalhadores, em outras palavras, pelas associações agrícolas e industriais.» [Michael Bakunin: Selected Writings, p. 206 and p. 174] Apenas pela extenção destes princípios de cooperação entre os indivíduos em seus locais de trabalho é que se poderá maximizar a liberdade individual e proteger (veja section I.1.3 porque a maioria dos anarquistas se opõem ao mercado). Essa era a idéia de Proudhon. As confederações industriais «garantiriam o uso mútuo dos meios de produção que seriam de propriedade de cada um desses grupos, ao mesmo tempo que haveria um contrato recíproco tornando propriedade coletiva o conjunto… da federação. Dessa forma, os grupos federados seriam capazes de… regular o rateio da produção de forma a atender as flutuantes necessidades da sociedade.» [James Guillaume, Bakunin on Anarchism, p. 376] Embora estes anarquistas apoiem os mutualistas enquanto trabalhadores autogestionários na produção cooperativa, vêem essas confederações e essas associações como sendo o ponto focal para a expressão do apôio mútuo, não o mercado. Autonomia local e autogestão seria a base de qualquer federação, a fim de que «os trabalhadores das mais variadas fábricas não troquem as mãos pelos pés assumindo o controle da produção como um poder superior e comecem a chamar-se a si mesmos de ‘corporação'». [Op. Cit., p. 364] Em adição à essa federação industrial haveriam também indústrias cruzadas e confederações de comunidades responsáveis por tarefas que não fossem da exclusiva jurisdição ou capacidade de alguma federação de indústria em particular ou de alguma área de natureza social. Novamente, aqui há similaridades com as idéias mutualistas de Proudhon. Os anarquistas sociais depositam uma grande confiança na gestão comum dos meios de produção (excluindo aqueles que são puramente individuais) e rejeitam a idéia individualista de que tais meios possam ser «vendidos» por aqueles que os utilizam. A razão, conforme observado anteriormente, é porque se isso for feito, o capitalismo e o estatismo poderia voltar a tomar forma dentro da sociedade livre. Além do mais, outros anarquistas sociais não concordam com a idéia mutualista de que o capitalismo possa ser reformado em direção a um socialismo libertário pela introdução do banco mútuo. Para eles o capitalismo pode apenas ser substituído por uma sociedade livre através da revolução social.
A maior diferença entre coletivistas e comunistas é sobre a questão do «dinheiro» após a revolução. Anarco-comunistas consideram a abolição do dinheiro como sendo essencial, enquanto os anarco-coletivistas consideram o fim da gestão privada dos meios de produção como sendo mais importante. Conforme relata Kropotkin, o anarquismo coletivista «expressa um estado de coisas em que tudo que for necessário para a produção estará disponível para todos através dos grupos de trabalho e das comunas livres, enquanto que as formas de retribuição do do trabalho, comunistas ou outros, seriam determinadas por cada grupo envolvido.» [Kropotkin’s Revolutionary Pamphlets, p. 295] Dessa forma, tanto o coletivismo quanto o comunismo ambos organizariam a produção em comum via associação de produtores, eles diferem na forma como os bens produzidos seriam distribuidos. O comunismo é baseado no livre consumo de tudo enquanto que o coletivismo parece basear-se na distribuição de bens de acordo com trabalho efetuado. Por outro lado, os anarco-coleitvistas pensam que, com o tempo, com o aumento da produtividade e com o fortalecimento do senso de comunidade, o dinheiro desaparecerá. Ambos concordam que, no final das contas, a sociedade funcionará de acordo com o que é sugerido pela máxima comunista: «Exigir de cada um conforme sua capacidade, e dar a cada um de acordo com suas necessidades». Eles apenas não concordam em como chegar rapidamente a esse ponto. Os anarco-comunistas acham que depois da revolução «o comunismo – mesmo que parcial – tem mais chances de se estabelecer que o coletivismo» . [Op. Cit., p. 298] «Se abolirmos a gestão privada dos meios de produção, e em seguida voltarmos ao sistema de remuneração de acordo com o trabalho realizado, traremos de volta a desigualdade.» [Alexander Berkman, The ABC of Anarchism, p. 80] Quanto mais rápido chegar-se ao comunismo, menores serão as chances do crescimento das desigualdades.
O sindicalismo é a outra grande vertente do anarquismo social. Os anarco-sindicalistas, como os outros sindicalistas, querem criar um movimento sindical industrial baseado em idéias anarquistas. Defendem a descentralização, sindicatos federados que usam a ação direta para se impor sobre o capitalismo até que estejam suficientemente fortes para abolí-lo. Sob os mais variados aspectos o anarco-sindicalismo em muito se assemelha ao anarco-coletivismo. O anarco-sindicalismo assume uma grande importancia no que diz respeito ao trabalho anarquista dentro dos movimentos de trabalhadores e na criação de sindicatos que serão uma amostra do futuro livre da sociedade. Mesmo sob o capitalismo, os anarco-sindicalistas procuram criar «livres associações de livres produtores.» De forma que essas associações funcionariam como «uma escola prática de anarquismo» e levam muito a sério as palavras de Bakunin de que as organizações de trabalhadores precisam criar «não apenas idéias mas também fatos do próprio futuro» neste período pré-revolucionário.
Tanto os anarco-sindicalistas, como todos os anarquistas sociais, «estão convencidos de que a ordem econômica socialista não pode ser criada por decretos e estatutos de um governo, mas apenas pela colaboração solidária dos trabalhadores com seus braços e cérebros voltados especialmente para a produção; isto é, que tudo funcione de tal forma que os produtores possam assumir o papel de gestores de todos os planos e que eles mesmos sejam os responsáveis pelos destinos das indústrias e pelas decisões dos organismos econômicos, direcionando sistematicamente a produção e a distribuição dos produtos no interesse das comunidades com base no livre acordo mútuo». [Rudolf Rocker, Anarcho-syndicalism, p. 55]
As diferenças entre sindicalistas e outros anarquistas sociais revolucionários é mínima e gira em torno de questões relativas a sindicatos anarco-sindicalistas. Os anarquistas coletivistas concordam que a construção de sindicatos libertários é importante e que um trabalho em meio ao movimento dos trabalhadores é essencial no sentido de «desenvolver e organizar . . . o poder social das massas de trabalhadores.» [Bakunin, Michael Bakunin:
Selected Writings, p. 197]
Os comunistas anarquistas em geral tem conhecimento da importancia do trabalho no meio operário mas acreditam em organizações sindicalistas enquanto criadas por trabalhadores em luta, de tal forma que consideram o «espirito da revolta» como mais importante que a simples fundação de sindicatos e filiação de trabalhadores a eles. Também não dão muita importancia ao local de trabalho, considerando que a luta travada ali dentro assume importancia igual a qualquer outra luta contra a hierarquia e a dominação fora do posto de trabalho (a maioria dos anarco-sindicalistas concorda com isso, todavia, trata-se apenas de uma questão de ênfase). Alguns anarco-comunistas acham que o movimento operário é reformista por natureza e se recusam a colaborar com ele, mas são uma pequena minoria. Tanto comunistas quanto anarquistas coletivistas reconhecem a necessidade dos anarquistas juntos formarem uma organização anarquista. Eles acham essencial que os anarquistas trabalhem juntos como anarquistas para clarear e transmitir suas idéias aos outros. Os sindicalistas são de grande importancia dentro dos grupos anarquistas e federações, defendendo que sindicatos industriais e comunitários são auto-suficientes. Os sindicalistas acreditam que os anarquistas e o movimento sindical podem se fundir em um só, embora a maior parte dos anarquistas não concordem. Os não-sindicalistas apontam para a natureza do sindicalismo e proclamam a necessidade de sindicatos revolucionários, e que os anarquistas precisam participar deles como parte de um grupo anarquista ou federação. A maior parte dos não sindicalistas consideram a fusão do anarquismo e do sindicalismo um suporte potencial para a confusão que resulta em que nem um nem outro funcione corretamente.
Na prática, alguns anarco-sindicalistas rejeitam totalmente a necessidade de uma federação anarquista, enquanto que outros anarquistas são totalmente anti-sindicalistas. Todavia, Bakunin foi o inspirador tanto das idéias anarco-comunistas como anarco-sindicalistas, da mesma forma que Kropotkin, Malatesta, Berkman e Goldman, todos simpáticos às idéias dos movimentos anarco-sindicalistas.
Para consultas futuras sobre os mais variados tipos de anarquismo social, recomendariamos o seguinte: o mutualismo é geralmente associado com as palavras de Proudhon, o coletivismo com Bakunin, o comunismo com Kropotkin, Malatesta, Goldman e Berkman. O sindicalismo difere no sentido de que é mais o produto da luta dos trabalhadores do que obra de nomes «famosos» (embora hajam acadêmicos do naipe de um George Sorel considerado o pai do sindicalismo, embora tenha escrito sobre o movimento sindical quanto ele já existia). De qualquer forma, Rudolf Rocker é por muitos considerado como o principal teórico do anarco-sindicalismo e as obras de Fernand Pelloutier e Emile Pouget são essenciais para a compreensão do anarco-sindicalismo. A excelente antologia No Gods No Masters de Daniel Guerin faz uma abrangente explanação sobre o desenvolvimento do anarquismo social na forma de uma leitura bastante agradável.
A.33. Quantos tipos de anarquismo verde existem?
A ênfase em idéias anarquistas como caminho para solução das crises ecológicas é corriqueira na maior parte do pensamento anarquista de nossos dias. Peter Kropotkin já dizia que uma sociedade anarquista teria como base uma confederação de comunidades que integrariam o trabalho manual e intelectual da mesma forma que descentralizariam e integrariam a indústria e a agricultura (veja sua obra clássica, Fields, Factories, and Workshops).
A idéia de uma economia em que «o pequeno é bonito» (para usar o título do clássico de E.F. Schumacher) foi proposto durante os anos 70 antes que fosse incorporado por aqueles que mais tarde formariam o movimento verde. Em adição, em Mutual Aid Kropotkin documentou como a cooperação com as espécies e entre elas juntamente com seu desenvolvimento é em geral mais benéfica que a competição. A obra de Kropotkin, conbinada com a de William Morris, e a dos irmãos de Reclus (os quais, como Kropotkin, foram geógrafos mundialmente renomados), e muitos outros serviram de bases para o corrente interesse anarquista pelos assuntos ecológicos.
Contudo, embora hajam muitos temas de natureza ecológica em meio aos anarquistas clássicos, apenas recentemente que as similaridades entre o pensamento ecológico e o anarquismo começaram a vir à tona (essencialmente a partir da publicação do ensaio clássico de Murray Bookchin «Ecologia e Pensamento Revolucionário» em 1965). Não há nenhum exagero em afirmar que foram as idéias e a obra de Murray Bookchim que colocaram os assuntos ecológicos e a ecologia no coração do anarquismo, dos ideais anarquistas e nas análises dos muitos aspectos do movimento verde.
Antes de discutir os tipos de anarquismo verde (também chamados de eco-anarquismo) seria oportuno explanar exatamente o que é que anarquismo e ecologia tem em comum. Citando Murray Bookchin, «tanto o ecologista quanto o anarquista dão uma forte ênfase na expontaneidade» e «tanto o ecologista quanto o anarquista, constituem uma identidade única dentro de formações diferenciadas. A diversificação e o enriquecimento das partes dá orígem a uma expansão.» E acrescenta, «da mesma forma que o ecologista procura expandir o range de um eco-sistema e promove o livre intercâmbio entre as espécies, o anarquista por sua vez, procura expandir o range das experimentações sociais e remover todos os obstáculos ao seu desenvolvimento» [Post-Scarcity Anarchism, p. 72, p. 78] Esta preocupação dos anarquistas para com o livre desenvolvimento, a descentralização e a expontaneidade é refletida nas idéias ecológicas e concernentes. Hierarquia, centralização, estado e concentração de riqueza reduz a diversidade e o livre desenvolvimento dos indivíduos e de suas comunidades, os desvia de sua verdadeira natureza, e enfraquece o eco-sistema social pois as sociedades do atual eco-sistema social humano estão separadas. Conforme Bookchim afirma, «a menságem reconstrutiva da ecologia . . . [é que] nós precisamos conservar e promover a variedade» mas fora da moderna sociedade capitalista «tuda essa expontâneidade, criatividade e individualidade é destruída pela padronização, pela regulamentação e pela massificação.» [Op. Cit., p. 76, p. 65] Portanto, de muitas maneiras, o anarquismo pode ser considerado a aplicação prática das idéias ecológicas na sociedade, as bandeiras anarquistas do fortalecimento dos indivíduos e das comunidades, da decentralização do poder político, social e econômico visam a potencialização dos indivíduos e do livre desenvolvimento de uma vida social rica e diversa em sua natureza.
Quantos tipos de anarquismo verde existem? Os eco-anarquistas destacam dois pontos focais. Ecologia Social e anarquismo «primitivista». Em adição, alguns anarquistas influenciados pela Deep Ecology, em pequeno número. Sem qualquer sombra de dúvida a Ecologia Social é a corrente mais forte. A Ecologia Social é associada com as idéias e obra de Murray Bookchim, relacionando assuntos ecológicos desde os anos 50 e, a partir dos anos 60, e combinando tais assuntos com o anarquismo social revolucionário. Sua obra inclui Post-Scarcity Anarchism, Toward an Ecological Society, The Ecology of Freedom e uma série de outros autores.
Os Ecologistas Sociais associam as raízes da crise ecológica com as relações de domínio entre as pessoas. O domínio da natureza é visto como um produto do domínio dentro da sociedade, mas esse domínio apenas aumenta as proporções da crise sob o capitalismo. Nas palavras de Murray Bookchim:
«A noção de que o homem precisa dominar a natureza emerge diretamente da dominação do homem pelo homem. . .» Mas não se trata apenas de relações comunais orgânicas. . . dissolvidas dentro de relações de mercado, o planeta em si mesmo foi reduzido a um mero suporte à exploração. Essa tendência ao longo dos séculos encontrou seu mais exacerbado desenvolvimento no moderno capitalismo. Argumentando que a natureza é inerentemente competitiva, a sociedade burguesa não apenas lançou homens contra outros homens, como também lançou a massa da humanidade contra o mundo natural. Da mesma forma como o homem é convertido em commodities, muitos aspectos da natureza humana é convertida para a commodity, um suporte a ser manufaturado e como uma mercadoria qualquer.» [Op. Cit., p. 63]
«A valorização do mercado em detrimento do espírito humano é paralela à valorização do capital em detrimento da terra.» [Ibid., p. 65]
Boa parte dos ecologistas sociais consideram essencial atacar a hierarquia e o capitalismo, não a civilização como sendo a causa raiz dos problemas ecológicos. Esta é uma das áreas chaves em que eles discordam das idéias Anarquistas «Primitivistas», os quais tendem a ser mais críticos em todos os aspectos da vida moderna, tanto que alguns vão mais longe e proclamam para o «fim da civilização» incluindo, aparentemente, todas as formas de tecnologia e organizações em larga escala.
Indo mais longe, os anarquistas «Primitivistas» defendem o retorno às formas «Hunter-Gatherer» da sociedade humana, opondo-se à tecnologia como sendo hierárquica por natureza. O magazine britânico «Green Anarchist» dá suporte vocal a esta idéia. Contudo, poucos anarquistas vão tão longe. Aparentemente, a maioria dos anarquistas atualmente defendem que tal «Primitivismo» não é anarquista de todo, pois o tal retorno à sociedade do «Hunter-Gatherer» resultaria em uma paralização na maioria dos países com o colapso das infraestruturas sociais. Pelo fato da maioria das pessoas não serem simpáticas às idéias de tais «Primitivistas», elas jamais seriam aceitas nos meios libertários (i.e. pela livre escolha dos indivíduos) e não seriam os anarquistas os únicos a rechaçar essas idéias, poucos abraçariam voluntariamente essa proposta.
Isto provocou o desenvolvimento por parte de algumas facções de «Anarquistas Verdes» de uma forma de eco-vanguardismo de maneira a, como disse Rousseau, «forçar o povo a ser livre» (como pode ser visto em artigos publicados em 1998 na celebração de atos terroristas). Em adição, a posição de «atrasar o relógio» é pouco convincente, quando afirma que as sociedades aborígenas em geral foram anárquicas, quando se sabe que tais sociedades desenvolveram-se formas de estatismo e de propriedade o que revela que tais sistemas «anarquistas primitivos» não são a resposta.
Contudo, poucos eco-anarquistas assumem essas posições tão extremas. A maior parte dos anarquistas «Primitivistas», mesmo aqueles que são anti-tecnologia e anti-civilização, como bem expressa David Watson, crêem que a melhor maneira de lidar com isso é o «reconhecimento do modo de vida dos aborígenes» e desenvolver uma aproximação crítica de tudo que se refere à tecnologia, racionalismo e progresso em relação à Ecologia Social. Esses eco-anarquistas rejeitam «um primitivismo dogmático que prega um simples retorno linear aos nossos primórdios» .
Para esses eco-anarquistas, o Primitivismo «reflete não apenas um período de vida antes do estado, mas também legitima respostas sobre as reais condições de vida sob a civilização» temos que respeitar e aprender com as «tradições paleotíticas e neolíticas» (associadas com as tribos Nativas Americanas e outros povos aborígenes). Mas isso não significa que «devamos abandonar os modos de pensar que se desenvolveram através dos séculos . . . não podemos reduzir a experiencia da vida, e das inevitáveis questões fundamentais do porque vivemos, e do como vivemos. . . embora, a diferença entre o espiritual e o secular não seja tão clara. O entendimento dialético de que somos nossa história seria uma inspirada razão para que honrássemos não apenas os ateísticos revolucionários espanhóis que morreram por um ideal, mas também os pacifistas religiosos prisioneiros de sua consiência. Os espíritos dançarinos dos Lakotas, dos hermitãos taoístas e dos místicos sufis executados.» [David Watson, Beyond Bookchin: Preface for a future social ecology, p. 240, p. 103, p.
240, pp. 66-67]
Tal anarquismo «Primitivista» associa-se a um range de magazines, a maior parte oriúndos dos Estados Unidos, como o Fifth Estate. Em uma questão referente à tecnologia, os eco-anarquistas defendem que «o mercado capitalista que deu início ao processo e que permanece como o núcleo do complexo, é apenas parte de algo maior: uma adaptação forçada dos organismos da sociedade humana para serem instrumentos econômicos da civilização e de suas técnicas massivas, não apenas hierárquica e externa mas inerentemente ‘celular’ e interna.» [David Watson, Op. Cit., pp. 127-8]
Por esta razão os anarquistas «Primitivistas» são mais críticos em todos os aspectos da tecnologia, que inclui a chamada aos anarquistas socieais para o uso de uma teconologia essencial apropriada de forma a libertar a humanidade e o planeta. Não é o uso da tecnologia que determina seus efeitos, os efeitos da tecnologia são determinados em larga escala pela sociedade que a cria. Em outras palavras, a tecnologia é escolhida com uma tendência a reforçar o poder hierárquico por parte daqueles que a detém, são essas pessoas que escolhem qual tecnologia será introduzida dentro da sociedade (é bom lembrar que os povos oprimidos possuem o excelente hábito de devolver a tecnologia contra os poderosos de tal forma que as mudanças tecnológicas e as lutas sociais estão interrelacionadas-veja section D.10).
O uso de tecnologia apropriada envolve mais que uma seleção no range de tecnologias disponíveis, uma vez que a tecnologia acaba influenciando aqueles que as utilizam. Na verdade trata-se de uma avaliação crítica em todos os aspectos da tecnologia e modificá-la ou rejeitá-la visando maximizar a liberdade individual, o fortalecimento e a felicidade. Poucos Ecologistas Sociais discordam dessa avaliação, todavia, algumas diferenças são mais questões de ênfase do que divergências de cunho político. Finalmente, os anarquistas «Primitivistas» como a maioria dos anarquistas, são completamente contra o apoio da Ecologia Social a candidatos em eleições municipais, estaduais ou nacionais. Alguns Ecologistas Sociais defendem a participação nesses fóruns políticos como um meio para desenvolver assembléias populares democráticas visando criar um contra poder ao estado, mas poucos anarquistas concordam com isso. A grande maioria vê esse procedimento como inerentemente reformista por esperarem que o uso de eleições trará algum tipo de mudança social (veja seção J.5.14 para uma completa discussão sobre isso). Em vez disso eles propõem o uso da ação direta como meio divulgar as idéias anarquistas e ecológicas, rejeitando o eleitoralismo como um peso morto que em 100% das vezes procura destruir as idéias radicais e corromper as pessoas envolvidas (veja seção J.2 — What is Direct Action?) Para mais informações sobre o Anarquismo «Primitivista» veja o Future Primitive e o excelente Elements of Refusal de John Zerzan, como também Beyond Bookchin and Against the Mega-Machine de David Watson. Finalmente, há a «deep ecology» que, em função de sua natureza biocêntrica, muitos anarquistas a rejeitam como sendo anti-humana. Existem poucos anarquistas que acham que o povo, como povo, são a causa das crises ecológicas, conforme muitos «deep ecologists» parecem sugerir. Murray Bookchin, por exemplo, não poupou críticas à «deep ecology» e as idéias anti-humanas que estão associadas a ela (veja Which Way for the Ecology Movement?, por exemplo).
David Watson também atacou a «deep ecology» (veja How Deep is Deep Ecology?, escrita por George Bradford). A maior parte dos anarquistas também concordam que o problema não está no povo mas no atual sistema, e que apenas o povo pode mudar isso, Nas palavras de Murray Bookchin:
«[O problema da Deep Ecology] está em percorrer os caminhos autoritários de um biologismo crú que usa ‘leis naturais’ para diminuir o senso de humanidade e ignorar a realidade do fato de que é o capitalismo o responsável, não uma abstração chamada ‘Humanidade’ e ‘Sociedade'» [The Philosophy of Social Ecology, p. 160]
Resumir a crítica e a análise ecológica em um protesto simplista contra a raça humana ignora a verdadeira causa e a dinâmica da destruição ecológica, nesta direção não será encontrado o caminho para estancar essa destruição. Torna-se um erro grosseiro colocar as coisas em termos de que o «povo» é o responsável quando sabemos que a vasta maioria sequer tem conhecimento das decisões que afetam suas vidas, comunidades, indústrias e eco-sistemas. A verdade é que o que está em jogo é um sistema social que coloca os lucros e o poder acima do povo e do planeta. Focar a «humanidade» (falhando em distinguir entre o rico e o pobre, o homem e a mulher, os brancos e as pessoas de cor, os explorados e exploradores, opressores e oprimidos) como a responsável pelo sistema que nós vivemos significa de fato ignorar as causas institucionais dos problemas ecológicos. Diante das constantes críticas anarquistas aos seus porta-vozes, muitos Deep Ecologists tem recuado em aceitar idéias anti humanas como o seu movimento.
A Deep Ecology, particularmente a organização Earth First! (EF!), tem mudado consideravelmente com o transcorrer do tempo, e EF! atualmente mantem um estreito relacionamento com o sindicato Industrial Workers of the World (IWW). A deep ecology não faz parte do eco-anarquismo, ela compartilha muitas idéias e grupos como o EF! estão começando a ter mais aceitação entre os anarquistas, pois começaram a rejeitam idéias misantropicas e ver que a hierarquia, não a raça humana, é o problema (para uma discussão entre Murray Bookchin e o lider Earth Firster! Dave Foreman veja o livro Defending the Earth).
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