Traduzido por Projecto Periferia
e publicado em http://www.geocities.com/projetoperiferia2/secA3.htm
A.3.4 O anarquismo é pacifista?
A vertente pacifista existe a muito tempo entre os anarquistas, com Leo Tolstoy sendo uma de suas maiores figuras. Essa vertente é usualmente chamada de «anarco-pacifismo» (o termo «anarquismo não-violento» é muitas vezes usado, mas tal terminologia é inadequada porque implica em que o restante do movimento é «violento», que não é o caso!). A união entre pacifismo e anarquismo não serpreende diante dos ideais e argumentos fundamentais do anarquismo.
A violencia, ou as formas ocultas de violência ou constrangimento, é um dos meios chaves pela qual a liberdade individual é destruída.
Confome Peter Marshall observou, «a forma com que os anarquistas proporcionam respeito às particulariedades do indivíduo ao longo de sua existencia é uma forma de não violência e um estilo não violento que tem sido ampliado pelos valores anarquistas.» [Demanding the Impossible, p.637]
Malatesta é ainda mais explícito quando escreve que «a essência do anarquismo é remover a violência das relações humanas» e que os anarquistas «se opõem à violência.» [Life and Ideas, p. 53]. Contudo, embora muitos anarquistas rejeitem a violência e proclamem o pacifismo, o movimento, em geral, não é essencialmente pacifista (no sentido de se opor a todas as formas de violência em todo o tempo).
Mesmo sendo anti-militarista, ao se posicionar contra a violência organizada do estado, reconhece que existem importantes diferenças entre a violência do opressor e a violência do oprimido. Estas coisas explicam porque o movimento anarquista sempre teve que dedicar uma boa parte do tempo e de energia se opondo à máquina do militarismo e das guerras capitalistas, enquanto que ao mesmo tempo, apoiava e organizava uma resistência armada contra a opressão (como foi o caso do exército Makhnovista durante a Revolução Russa que resistiu ao mesmo tempo ao Exército Vermelho e ao Exéricito Branco, e como foi o caso das milícias organizadas pelos anarquistas para resistir aos fascistas durande a Revolução Espanhola-veja seções A.5.4 e A.5.6, respectivamente). Em questão de não-violência, como uma regra eterna, o movimento divide-se ao longo das linhagens Individualista e Social. A maioria dos anarquistas Individualistas simplesmente apoiam as táticas não-violentas para a mudança social, como fazem os Mutualistas. Contudo, o anarquismo Individualista não é pacifista como eles, tanto que muitos apoiam a idéia da violência como forma legítima de auto-defesa contra a agressão. A maior parte dos anarquistas sociais, por outro lado, apóiam o uso da violência revolucionária, pela utilização da força física quando ela for requerida tanto para demolir o poder como plara resistir à agressão do estado e do capitalismo (o mesmo sucede com o anarco-sindicalismo, consulte Bart de Ligt, que escreveu o clássico pacifista, The Conquest of Violence). Malatesta descreveu a violência como sendo: «um mal em si mesma», e que é «justificada apenas quando ela é necessária para defender-se a si mesmo e aos outros da violência» e que o «escravo está em todo o tempo em estado de legítima defesa, consequentemente, sua violência contra o dominador, contra o opressor, é sempre moralmente justificável.» [Op. Cit., p. 55, pp. 53-54]. Alguns alegam que as palavras de Bakunin dizem respeito à opressão social «um ataque dirigido menos aos indivíduos e mais à organização das coisas e à posição social», bandeiras anarquistas como «básicamente destruir posições e coisas» mais do que pessoas, aparece como a bandeira de uma revolução anarquista cujo alvo é o fim das classes privilegiadas «não como indivíduos, mas como classe.» [citado por Richard B. Saltman, The Social and Political Thought of Michael Bakunin p. 121, p. 124 e p. 122]. A questão da violência é relativamente importante para a maioria dos anarquistas, embora não a glorifiquem e pensem que deveria haver um esforço para que houvesse o mínimo possível durante uma luta social ou revolução. Todos anarquistas concordam com o pacifista anarco-sindicalista alemão Bart de Ligt quando ele afirma que «a violência e a guerra que são as condições características do mundo capitalista não tem nada a ver com a liberdade do indivíduo, que é a missão histórica das classes trabalhadoras. O fim da violência só acontecerá quando toda violência for deliberadamente colocada a serviço da revolução.» [The Conquest of Violence, p. 75]. De forma similar, todos anarquistas concordariam com de Ligt, no que diz respeito ao nome de um dos capítulos de seu livro, «o absurdo do pacifismo burguês». Para de Ligt, e para todos os anarquistas, a violência é inerente ao sistema capitalista e qualquer tentativa de fazer um capitalismo pacifista está condenado ao fracasso. É por isso que, de um lado, a guerra significa apenas uma faceta da competição econômica quando esta fracassa por outros meios. As nações vão à guerra quando elas enfrentam uma crise econômica, quando elas não conseguem ganhar uma luta econômica elas apelam para o conflito. Por outro lado, «a violência é indispensável nesta moderna sociedade. . . [porque] sem ela as classes dominantes seriam completamente incapazes de manter suas posições de privilégios na manutenção das massas exploradas em cada país.» O exército é usado principalmente e acima de tudo em função dos trabalhadores. . . quando eles se tornarem descontentes.» [Bart de Ligt, Op. Cit., p. 62]. Tão antiga quanto o estado e o capitalismo, a violência é inevitável e, portanto, para os anarco-pacifistas, um pacifismo consistente precisa ser anarquista da mesma forma que o anarquismo consistente precisa ser pacifista. Para aqueles anarquistas que são não-pacifistas, a violência aparece como inevitável e desgraçadamente resulta da opressão e exploração dos meios de produção pelas classes privilegiadas. O uso da violência será inevitável para que renunciem seu poder e riqueza. Aqueles que detem a autoridade raramente cedem seu poder a não ser pela força. A necessidade de uma violência «provisória para por um fim à generalização e perpetuação da violência é inevitável àqueles que pretendem sair da condição de servidão.» [Malatesta, Op. Cit., p. 55]. Polarizar no assunto violência versus não-violência é ignorar o assunto principal, em como é que mudaremos a sociedade para melhor.
«it’s the same as if rolling up your sleeves for work should be considered the work itself. . .[t]he fighting part of revolution is merely rolling up your sleeves. The real, actual task is ahead.» [ABC of Anarchism, p. 40]. A maioria das lutas sociais e revoluções começam relativamente pacíficas (via greves, ocupações e coisas parecidas) e apenas degenera para a violência quando aqueles que estão no poder tentam manter suas posições (um clássico exemplo ocorreu na Itália, em 1920, quando a ocupação de fábricas pelos trabalhadores foi seguida pelo terror fascista-veja section A.5.5). Conforme já foi dito, todos os anarquistas são anti-militaristas e se opõem tanto à máquina militar (mesmo à «indústria» da defesa) quanto à guerra estatista/capitalista (embora alguns anarquistas como Rudolf Rocker e Sam Dolgoff, tenham apoiado a facção capitalista anti-fascist durante a segunda grande guerra como um mal menor). A menságem anti-guerra dos anarquistas e dos anarco-sindicalistas foi propagada antes mesmo de começar a primeira guerra mundial, pela ação de sindicalistas e anarquistas na Inglaterra e na América do Norte apoiados pela esquerdista CGT francesa conclamando os soldados para que não obedecessem órdens de atacar companheiros trabalhadores de outros paises. Emma Goldman e Alexander Berkman ambos foram presos e deportados da América por organizarem a «No-Conscription League» em 1917 ocasião em que muitos anarquistas na Europa foram presos por recusarem-se a participar das forças armadas durante a primeira e a segunda guerra mundial. A influência anarco-sindicalista da IWW foi esmagada pela repressão governamental dirigida contra essas organizações em função das menságens anti-bélicas que apontavam as poderosas elites como as beneficiárias. Mais recentemente, anarquistas, (incluindo gente como Noam Chomsky e Paul Goodman) tem participado ativamente em movimentos pela paz da mesma forma que contribuem na resistência pela objeção de consciência onde quer que exista. Os anarquistas participaram ativamente na oposição a guerras como a Guerra do Vietnam, a guerra das Falklands da mesma forma que a Guerra do Golfo (incluindo, na Itália, a ajuda na organização de greves de protestos contra ela). O mesmo aconteceu durante o último conflito quando muitos anarquistas levantaram o slogan «Nenhuma guerra exceto a guerra de classes» que marcou a oposição anarquista à guerra-decididamente um mal consequente do sistema de classes, no qual as classes opressoras de diferentes países matam-se uns aos outros pelo poder, pelo lucro e em proveito de seus governantes. Em vez de participarem nessas organizações, os anarquistas proclamam às classes trabalhadoras lutar pelos seus próprios interesses e não pelos interesses de seus opressores:
«Mais do que nunca precisamos evitar compromisso; entre capitalistas e escravos, entre governantes e governados; pregue a expropriação da propriedade privada e a destruição dos estados como o único meio de garantir a fraternidade entre os povos e a Justiça e a Liberdade para todos» [Malatesta, Op. Cit., p. 251]
(Notamos aqui que as palavras de Malatesta foram em parte escritas contra Peter Kropotkin que, por razões que ninguém conhecia melhor que ele, rejeitou tudo que ele defendeu por décadas e apoiou os aliados na Primeira Grande Guerra como um mal menor contra o autoritarismo e o Imperialismo alemão. Naturalmente, conforme apontado por Malatesta, «todo governo e toda classe capitalista» criaram «divisões. . . entre os trabalhadores e rebeldes de seus próprios países.» [Op. Cit., p. 246]). A aproximação entre o pacifismo e os anarquistas é evidente. A violência é autoritária e coercitiva, e o uso dela entra em contradição com os princípios anarquistas. Por isso que os anarquistas concordam com Malatesta quando ele diz que «somos em princípio contra a violência e por essa razão acreditamos que a luta social deve ser conduzida tão humanamente quanto possível.» [Op. Cit., p. 57]. A maior parte, senão todos, dos anarquistas que não são estritamente pacifistas concordam com os pacifistas-anarquistas qudo eles defendem que a violência pode muitas vezes ser contraprodutiva, alienando as pessoas e dando ao estado uma desculpa para poder reprimir tanto o movimento anarquista como os movimentos populasres por mudança social. Todos anarquistas apoiam a ação direta não-violenta e a desobediência civil, que na maior parte das vezes se apresenta como o melhor caminho para uma mudança radical. Dessa forma, pelo apresentado, é raro encontrar anarquistas que sejam puramente pacifistas. A maioria aceita o uso da violência como um mal necessário e advogam seu uso mínimo. Todos concordam que a revolução que institucionaliza a violência apenas recriará o estado em uma nova versão. Eles defendem, que não é necessário ser autoritário para destruir o autoritarismo ou usar a violência pra resistir à violência. Embora a maioria dos anarquistas não sejam pacifistas, a maioria deles rejeita a violência exceto em casos de auto-defesa e ainda assim minimizada.
A.3.5 Que é Anarco-Feminismo?
Uma contínua oposição ao estado e a todas as formas de autoritarismo tiveram expressão entre as primeiras feministas do século 19, e mais recentemente no movimento feminista dos anos 60, fundados com base na prática anarquista.
Esta é a orígem do termo anarco-feminismo, referindo-se a mulheres anarquistas que atuam entre as mulheres e os movimentos anarquistas para lembrar-lhes seus princípios. Anarquismo e feminismo sempre estiveram estreitamente ligados entre si. Muitas feministas de destaque foram também anarquistas, incluindo a pioneira Mary Wollstonecraft (autora de A Vindication of the Rights of Woman), Communard Louise Michel, Voltairine de Cleyre e a campeã das liberdades femininas, Emma Goldman (veja seus famosos ensaios «»The Traffic in Women», «Woman Suffrage», «The Tragedy of Woman’s Emancipation», «Marriage and Love» e «Victims of Morality», por exemplo). Freedom, a mais antigo jornal anarquista do mundo, foi fundado por Charlotte Wilson em 1886. Em adição, todos os maiores pensadores anarquistas (inclusive Proudhon) defenderam a igualdade da mulher. O movimento «Mulheres Livres» na Espanha durante a revolução espanhola é um exemplo clássico de mulheres anarquistas organizando a si mesmas para defender suas liberdades básicas e criar uma sociedade baseada na liberdade da mulher e na igualdade (veja Free Women of Spain por Martha Ackelsberg para mais detalhes a respeito dessa importante organização). Tanto anarquistas como feministas tem compartilhado muitas histórias comuns e uma preocupação com a liberdade individual, igualdade e dignidade para membros do sexo feminino (embora, conforme explanaremos com mais detalhes abaixo, os anarquistas tenham sempre sido muito críticos do feminismo por não ter avançado suficientemente). Entretanto, não foi nenhuma surpreza que uma nova vertente de feminismo nos anos 60 expressasse uma maneira anarquista própria inspirada em personalidades anarquistas como Emma Goldman. Cathy Levine revela que nessa época, «grupos independentes de mulheres começaram a funcionar sem estrutura, líderes, ou outros suportes da esquerda feminina, criando, de forma independente e expontânea, organizações similares às formadas por muitas décadas e regiões. Contudo, nada aconteceu por acaso» [citado por Clifford Harper, Anarchy: A Graphic Guide, p. 182]. Nada disso aconteceu por acaso porque, como a escola feminista percebeu, as mulheres foram ao longo do tempo as primeiras vítimas da hierarquia social, fato que remonta à subida do patriarcado e às ideologias de dominação durante a era Neolítica. Marilyn French (em Beyond Power) defende que a primeira maior extratificação da raça humana ocorreu quando os homens começaram a dominar as mulheres, relegando às mulheres a uma classe social «subalterna» e «inferior». Peggy Kornegger destaca a forte conecção entre feminismo e anarquismo, tanto em teoria quanto em prática. «A perspectiva radical feminina é o anarquismo em toda sua pureza», escreveu ela. «Os postulados de teoria básica da família nuclear [revelam-se] como a base de todo o sistema autoritario. A lição que a criança aprende, do pai que ensina a obediência a deus, é [direcionada] para a obediência à grande e anônima voz da Autoridade. Passar da infância para a idade adulta é tornar-se um autômato, incapaz de questionar ou mesmo pensar com clareza» [Ibid.]. De forma semelhante, o Zero Collective defende que o anarco-feminismo «consiste em reconhecer o anarquismo do feminismo e a consiência de seu desenvolvimento.» [The Raven, no. 21, p. 6]. O anarco-feminismo destaca a prática autoritária e seus valores de dominação, exploração, agressividade, competitividade, insensibilidade, etc., todos altamente valorizados em civilizações hierárquicas e tradicionalmente reconhecidas como «masculinos». Em contraste, a prática não-autoritária e valores como cooperação, cuidado, compaixão, sensibillidade, carinho, etc., são tradicionalmente tidos como «femininos» e desvalorizados. Segundo a escola feminista tais fenômenos remontam do surgimento das sociedades patriarcais durante a idade do Bronze e suas conquistas das cooperativas fundamentadas em sociedades «organicas» em que a prática «feminina» e valores prevaleciam e eram respeitados. Seguindo-se a estas conquistas, contudo, tais valores vieram a ser tidos como «inferiores», especialmente pelo homem, até mesmo os homens foram submetidos a dominação e exploração sob o patriarcado. (Veja e.g. Riane Eisler, The Chalice and the Blade; Elise Boulding, The Underside of History).
As anarco-feministas fazem referência à criação de uma sociedade não-autoritária, uma sociedade anarquista baseada na cooperação, no cuidado, no apoio mútuo, etc., uma «femininalização da sociedade». As Anarco-feministas tem notado que esta «femininalização» da sociedade não pode ocorrer sem a autogestão e a descentralização. Isto porque os valores patriarcais-autoritários e suas tradições trariam de volta seus vícios e reproduziriam as hierarquias. Tal feminismo implica em descentralização, que por seu turno implica em auto-gestão. Muitas feministas reconhecem isto, como o reflexo de seus experimentos com formas coletivas de organizações feministas que eliminam a estrutura hierárquica e as formas competitivas de tomada de decisões. Algumas feministas argumentam que as organizações de democracia direta assumem formas políticas marcadamente femininas [veja e.g. Nancy Hartsock «Feminist Theory and the Development of Revolutionary Strategy,» em Zeila Eisenstein, ed., Capitalist Patriarchy and the Case for Socialist Feminism, pp. 56-77]. Como todos os anarquistas, as anarco-feministas reconhecem que a auto-libertação é a chave para que a igualdade da mulher e portanto, a liberdade. Segundo Emma Goldman:
«Seu desenvolvimento, sua liberdade, sua independencia, precisa vir de si própria. Primeiro, pelo reconhecimento de si própria como uma personalidade, e não como como um objeto sexual. Segundo, pela recusa do direito de alguém sobre seu corpo; pela recusa em gerar crianças, a menos que queira, pela recusa em ser uma serva de Deus, do Estado, da sociedade, do marido, da família, etc., por tornar sua vida simples, mas profunda e rica. Em suma, pela tentativa de aprender os princípios e a substancia da vida em todas suas complexidades; pela libertação pessoal do medo da opinião e da condenação pública.»[Anarchism and Other Essays, p. 211].
O anarco-feminismo tenta manter o feminismo diante das influências e do domínio das ideologias autoritárias tanto da direita quanto da esquerda. E propõem ações diretas e instâncias de auto-ajuda em oposição às campanhas reformistas de massa amparadas pelo movimento feminista «oficial», movimentos criados em torno de organizações hierárquicas e centralistas que com suas ilusões que acabam por tormar as mulheres opressoras, políticas, e soldadas, sob a alegação de que estão em direção à «igualdade». As anarco-feministas destacam que as que se denominam «gestoras da ciência» que são mulheres que tem que aprender de forma a tornar-se gestoras em empresas capitalistas é essencialmente um instrumento das técnicas para o controle e a exploração do conjunto de trabalhadores em hierarquias corporativas, uma sociedade «femininalizada» requer a eliminação do capitalismo e da escravidão e o fim de todos os tipos de dominação. As anarco-feministas acreditam que aprender como tornar-se um efetivo explorador ou opressor não é um indicativo de igualdade (conforme disse uma componente do Mujures Libres, «não queremos substituir a hierarquia masculina por uma hierarquia feminina» [citado por Martha A. Ackelsberg, Free Women of Spain. p.2] — veja tambem a seção B.1.4 para uma futura discussão sobre patriarcado e hierarquia). As tradicionais hostilidades entre o anarquismo tradicional e o feminismo liberal, se revelaram na luta por libertação e igualdade das mulheres. Frederica Montseny (figura destacada no movimento anarquista espanhol) defendia que tal feminismo advoga a igualdade com os homens, mas não muda em nada as instituições existentes. Ela criticou o feminismo liberal (mainstream) «é apenas ambição dar para uma mulher de uma determinada classe a oportunidade de uma participação mais integral em um sistema de privilégios» e se estas instituições «são injustas quando os homens tomam partido delas, elas também serão injustas quando as mulheres tomarem partido delas». [quoted by Martha A. Ackelsberg, Op. Cit., pp. 90-91, p. 91]. Na história do movimento anarquista, conforme as anotações de Martha Ackelsberg, o feminismo liberal/mainstream foi considerado como sendo «exclusivamente focado na estragégia da emancipação da mulher; a luta dos sexos não poderia estar separada da luta de classes ou do projeto anarquista como um todo.» [Op. Cit., p. 91]. O anarco-feminismo continua sua tradição em revelar que todas as formas de hierarquia estão erradas, não apenas o patriarcado, e que o feminismo está em conflito com seus próprios ideais se seu alvo é ter as mesmas chances que um homem tem para ser um chefe. O anarco-feminismo, portanto, como todos os anarquistas se opõe ao capitalismo como um impedimento a liberdade. O ideal de «iguais oportunidades» dentro do sistema capitalista levarão mulheres livres a ignorar o fato de que qualquer sistema onde houver mulheres da classe trabalhadora sendo oprimidas por chefes (sejam eles machos ou fêmeas) é nocivo. Para as anarco-feministas, a luta pela libertação da mulher não está separada da luta contra a hierarquia como tal. Conforme L. Susan Brown destacou:
«O anarco-feminismo, como expressão da sensibilidade anarquista aplicada às preocupações femininas, toma o indivíduo como seu ponto inicial, e se opõe às relações de domínio e subordinação, com base em formas econômicas não instrumentais que preservem a liberdade da existência humana, tanto de homens como de mulheres.» [The Politics of Individualism, p. 144]
As anarco-feministas tem muito a contribuir para nosso entendimento acerca das orígens da crise ecológica nos valores autoritários da civilização hierárquica. Por exemplo, uma componente da escola feminista defendeu que a dominação da natureza tem só tem paralelo na dominação da mulher, a qual se identifica com a natureza através da história (Veja, por exemplo, Carline Merchant, The Death of Nature, 1980). Tanto as mulheres como a natureza são vítimas da obsessão pelo controle que caracteriza a personalidade autoritária. Por esta razão, um crescente número de ecologistas radicais e de feministas estão reconhecendo que a hierarquia precisa ser desmantelada de forma a alcançar suas respectivas metas. Em adição a isto, o anarco-feminismo lembra-nos da importancia de tratar mulheres igualmente como os homens, e ao mesmo tempo, respeitar as diferenças das mulhres com os homens. Em outras palavras, que a diversidade no reconhecimento e no respeito inclui tanto homens como mulheres. Os anarquistas homens assumem que, por se oporem (em teoria) ao sexismo, eles não são sexistas na prática. Tal presunção é falsa. O anarco-feminismo exige consistência entre teoria e prática diante do ativismo social e lembra-nos todos que nós podemos lutar não apenas no plano externo mas também no plano interno.
A.3.6 Que é Anarquismo Cultural?
No que nos diz respeito, definimos anarquismo cultural como a promoção de valores anti-autoritários dentro daquilo que a sociedade tradicionalmente define como «cultura»- por exemplo, arte, música, drama, literatura, educação, moralidade sexual, tecnologia, diversões infantís, e por aí afora.
As expressões culturais se caracterizam como anarquistas quando entendidas como um ataque deliberado, direto, ou quando subverte tendências mais tradicionais das formas de cultura que promovem valores e atitudes autoritárias, particularmente de dominação e de exploração.
Uma novela que retrata o mal do militarismo pode ser considerada como anarquismo cultural se retrata o modelo de que «guerra é inferno» e mostra aos leitores como o militarismo se conecta com as instituições autoritárias (p.e. capitalismo e estatismo) ou métodos de condicionamento autoritários (i.e. baseados em valores das tradicionais famílias patriarcais). Ou, conforme John Clark expressou, o anarquismo cultural «implica no desenvolvimento das artes, media, e outras símbólicas formas de expressão que expõem os mais variados aspectos do sistema de dominação contrastando com um sistema de valores baseado na liberdade e na comunidade.» [The Anarchist Moment: Reflections on Culture, Nature and Power]
O anarquismo cultural é importante-senão essencial-por causa dos valores autoritários que permeiam todo o sistema de dominação que vai da política à economia. Esses valores jamais serão erradicados mesmo em processos combinados de revolução política e econômica se não forem também acompanhados por profundas mudanças psicológicas na maioria da população.
A aquiescência maciça no corrente sistema tem raíz na estrutura psíquica do ser humano (sua «estrutura de caráter», para usar a expressão de Wilhelm Reich), que é produzida por muitas formas de condicionamento e socialização que tem se desenvolvido na civilização autoritária-patriarcal durante os últimos cinco ou seis mil anos. Em outras palavras, mesmo se o capitalismo e o estado acabassem amanhã, as pessoas se empenhariam logo em seguida em criar novas formas de autoridade para substituí-los. Através da autoridade- um forte líder, um comandante, alguém que desse ordens e que nomeasse alguém para a responsabilidade de pensar pelos outros-personalidades submissas/autoritárias se sentem mais confortáveis. Infelizmente, a maioria dos seres humanos temem a real liberdade, e consequentemente, não sabem o que fazer com ela-a prova disso é a longa lista de revoluções e de movimentos libertários que fracassaram quando os ideais revolucionários de liberdade, democracia, e igualdade foram desprezados rapidamente, dando lugar a uma nova hierarquia juntamente com novas classes governantes. Esses fracassos são geralmente atribuidos às maquinações de políticos e capitalistas reacionários, e também às vascilações dos líderes revolucionários; mas os políticos reacionários atraem seguidores pelo simples fato de que acham um solo favorável para fazer crescer seus ideais autoritários na estrutura do caráter das pessoas ordinárias. Como pré requisito de uma revolução anarquista é necessário um período de elevação do nível de conscientização em que as pessoas gradualmente tornem-se avessas à prática submissa/autoritária em seu meio, veja como tais práticas são reproduzidas pelo condicionamento, e compreenda como elas podem ser mitigadas ou eliminadas através de novas formas de cultura, particularmente novos métodos de educação e de cuidados para com as crianças.
Falaremos deste assunto mais profundamente na seção B.1.5
(What is the mass-psychological basis for authoritarian civilisation?), J.6 (What methods of child rearing do anarchists advocate?), e J.5.13 (What are Modern Schools?) As idéias culturais anarquistas são apresentadas por quase todas as escolas do pensamento anarquista e a conscientização é considerada como parte essencial de qualquer movimento anarquista. Para os anarquistas, é importante «construir um novo mundo no lugar do velho» em todos os aspectos de nossas vidas e criar uma cultura anarquista é parte dessa atividade. Alguns anarquistas, contudo, consideram a conscientização como insuficiente em si mesma e procuram combinar atividades de cultura anarquista com organização, usando a ação direta e a construção de alternativas libertárias em oposição à sociedade capitalista. O movimento anarquista caracteriza-se por combinar práticas de auto-atividade com trabalho cultural, com ambas atividades apoiando-se e ajudando-se mutuamente.
A.3.7 Existem anarquistas religiosos?
Sim, existem. A maior parte dos anarquistas se opõem à religião e à idéia de Deus como uma invenção anti-humana e uma justificação para o autoritarismo e escravidão, porém, muitos crentes em religião tem pautado suas idéias em conclusões anarquistas. Como todos anarquistas, esses religiosos anarquistas combinam a oposição ao Estado com uma oposição crítica à propriedade privada e à desigualdade. Em outras palavras, o anarquismo não é necessáriamente ateísta. De acordo com Jacques Ellul, «de acordo com os pensadores cristãos, o pensamento bíblico conduz diretamente ao anarquismo, a única posição «política anti-política» .» [citado por Peter Marshall, Demanding the Impossible, p. 75] Existem variados tipos de anarquismo inspirados por idéias religiosas. Conforme Peter Marshall relata, a «primeira expressão clara de uma sensibilidade anarquista pode ser encontrada nos taoístas da velha China por volta do sexto século AC» e no «Budismo, particularmente em sua forma Zen, … teve… um forte espírito libertário.» [Op. Cit., p. 53, p. 65] Alguns combinam idéias anarquistas com influências pagãs e espiritualistas. Contudo, o anarquimo religioso atualmene tomou a forma de anarquismo cristão, no qual vamos nos concentrar aqui.
Os cristãos anarquistas levam a sério as palavras de Jesus a seus seguidores de que «os reis e os homens importantes da terra dominam sobre o povo. Porém entre vocês é diferente» (Marcos 10:42,43). De forma similar, o dístico de Paulo de que «não há nehuma autoridade exceto Deus» é obviamente associada à autoridade estatal sobre a sociedade. Isto significa, para um verdadeiro cristão, que o Estado além de usurpar a autoridade de Deus tira de cada indivíduo a chance de se governar a si mesmo e de descobrir que (conforme o título do famoso livro de Tolstoy) o Reino de Deus está dentro de você. De forma sililar, a pobreza voluntária de Jesus, seus comentários sobre os efeitos corruptores da riqueza e o clamor bíblico de que o mundo foi criado para a humanidad viver em comunhão, tem tudo a ver com a base da crítica socialista à propriedade privada e ao capitalismo. Somando-se a isto, a primitiva igreja cristã (que poderia ser considerada como um movimento de libertação de escravos, embora mais tarde tenha sido cooptada como religião de Estado) baseava-se na comunística divisão dos bens materiais, um tema que continuamente aparece em movimentos radicais cristãos (suspeita-se que a Biblia teria sido usada para expressar as aspirações radicais libertárias dos oprimidos, e que, com o tempo, foi tomando a forma da terminologia anarquista e marxista). Veja o comentário de John Ball durante a Revolta Peasant em 1381 na Inglaterra:
«When Adam delved and Eve span,
Who was then a gentleman?»
A historia do anarquismo cristão inclui a Heresia do Espírito Livre na Idade Média, quando muitos se levantaram em revolta como os Anabatistas no século XVI. Depois disto, a tradição libertária dentro da cristandade surge novamente nos escritos de Willian Blake no século XVIII e depois na obra do americano Adam Ballou produzida em 1854: Practical Christian Socialism,plena de conclusões anarquistas. Contudo, o anarquismo cristão só se tornou claramente reconhecido no movimento anarquista com a obra do famoso escritor russo Leon Tolstoy.
Tolstoy levou a sério a menságem da Bíblia e considerou que o verdadeiro cristão precisa se opor ao Estado. Com esta leitura da Bíblia, Tolstoy chegou a conclusões anarquistas:
«governar significa usar a força, e usar a força significa fazer para os outros o que certamente não gostaríamos que fosse feito para nós. Consequentemente, governar significa fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros fizessem para nós, isto é, fazer o mal.» [The Kingdom of God is Within You, p. 242]
Um verdadeiro cristão deve ser avesso a governar os outros. A partir dessa posição anti-estatista ele naturalmente passou a defender uma sociedade auto-organizada:
«Porque pensar que pessoas comuns não são capazes de auto-organizar suas vidas, e que governantes o farão não em proveito próprio mas em proveito dos outros?» [The Anarchist Reader, p. 306]
Tolstoy proclamava ação não-violenta contra a opressão, e via a transformação espiritual dos indivíduos como a chave para a criação de uma sociedade anarquista. Conforme Max Nettlau argumentava, a «grande verdade expressa por Tolstoy é que o reconhecimento do poder do bem, da bondade, da solidariedade – e de tudo que se chama amor – está dentro de nós mesmos, e que isto pode e precisa brotar, desenvolver-se e exercitar-se em nossa própria existência.» [A Short History of Anarchism, pp. 251-2] Como todos os anarquistas, Tolstoy criticava a propriedade privada e o capitalismo. Da mesma forma que Henry George (cujas idéias, tanto quanto as de Proudhon, tiveram um forte impacto sobre ele) ele se opunha à propriedade da terra, arguindo que «não há nada que justifique a propriedade da terra, e sua consequente valorização, as pessoas não foram criadas para viver em espaços restritos, mas para ocupar a terra livre tão abundante no mundo» Contudo, «nesta luta [pela propriedade da terra] não são aqueles que trabalham na terra, mas aqueles que participam em um governo violento que saem ganhando.» [Op. Cit., p. 307] Segundo Tolstoy os direitos de propriedade de qualquer meio de produção requer a violência do Estado para protegê-lo (a possessão é «sempre protegida pelos costumes, opinião pública, pelo senso de justiça e reciprocidade, nunca precisa ser protegida pela violência.» [Ibid.]). Acrescentando, ele argumenta que:
«Dezenas de milhares de acres de terras cobertas por florestas pertencem a um único proprietário – enquanto que milhares de pessoas… precisam ser contidas pela violência. Criam-se fábricas e ofícios onde muitas gerações de trabalhadores são fraudadas. Enquanto que centenas de milhares de sacas de grãos, pertencentes a um só dono, aguardam os tempos de fome para serem vendidas pelo triplo do prêço.» [Ibid.]
Tolstoy argumenta que o capitalismo conduz o indivíduo tanto à ruína moral como física, e que os capitalistas são «condutores de escravos.» Ele considera impossível para um verdadeiro Cristão ser um capitalista, pois o «patrão é um homem cujo ganho consiste na supressão de valores pertencentes a trabalhadores cuja ocupação principal baseia-se em trabalhos forçados, contra a natureza humana» portanto, «ele [patrão] arruina vidas humanas em proveito próprio.» [The Kingdom Of God is Within You, p. 338, p. 339] Tolstoy qualifica as cooperativas como «atividade social onde a moral e o auto-respeito impedem pessoas que não querem fazer parte da violência, tomem parte nela.» [citado por Peter Marshall, Op. Cit., p. 378]
A partir de sua oposição à violência, Tolstoy rejeita tanto o Estado como a propriedade privada e defende táticas pacifistas para dar um fim à violência dentro da sociedade e criar uma sociedade justa. Nas palavras de Nettlau, ele «defendia a . . . resistência ao mal; e à forma de resistência – pela força ativa – ele acrescentou outro caminho: a resistência pela desobediência, a força passiva.» [Op. Cit., p. 251] Em suas idéias sobre uma sociedade livre, Tolstoy foi claramente influenciado pela vida rural russa e pelas obras de Peter Kropotkin (como Fields, Factories and Workshops), J. P. Proudhon e do não anarquista Henry George.
As idéias de Tolstoy tiveram uma forte influência em Gandhi, que inspirou muita gente em seu país ao uso da resistência não-violenta para acabar com o domínio britânico da Índia. Aparentemente, a visão de Gandhi de uma Índia livre enquanto uma federação de comunas é similar à visão anarquista de Tolstoy de uma sociedade livre (embora tenhamos clareza de que Gandhi não foi um anarquista). O Catholic Worker Group nos Estados Unidos foi também fortemente influenciado por Tolstoy (e Proudhon), assim como por Dorothy Day, uma destacada anarquista e pacifista Cristã fundadora do jornal Catholic Worker em 1933. A influência de Tolstoy e do anarquismo religioso em geral pode também ser encontrado nos movimentos ligados à Teologia da Libertação nos países latinos e na América do Sul que combinam idéias cristãs com ativismo social em meio às classes trabalhadoras e marginalizados (embora não haja dúvida que a Teologia da Libertação em geral inspira-se mais em um Estado socialista que em idéias anarquistas).
Em países onde a Igreja controla de fato o poder político, como a Irlanda, partes da América do Sul, e Espanha, que exerceu grande influência em todo século XIX e no começo do século XX, os anarquistas foram fortemente anti-religiosos porque a Igreja tinha o poder de reprimir a dessidência e a luta de classes. Tanto que, quase todos anarquistas eram ateístas (e concordavam com Bakunin que se Deus existisse seria necessário, para a liberdade e dignidade humana, aboli-lo), existe uma tradição minoritária dentro do anarquismo que desvincula conclusões anarquistas da religião. Nesta mesma direção, muitos anarquistas sociais consideram o pacifismo tolstoyano como dogmático e extremo, vendo a necessidade (algumas vezes) do uso da violência para resistir a um grande mal. Contudo, muitos anarquistas concordam com tolstoyanos no que se refere à necessidade de uma transformação dos valores individuais como o aspecto chave para a criação de uma sociedade anarquista, e da importancia da não-violência enquanto tática geral (embora, convenhamos, seja raro o anarquista que rejeite totalmente o uso da violência na auto-defesa, quando não restar outra alternativa).
A.3.8 Que é «anarquismo sem adjetivos»?
Nas palavras do historiador George Richard Esenwein, «anarquismo sem adjetivos» em seu sentido lato «refere-se a uma indiscutível forma de anarquismo, uma doutrina sem qualquer etiqueta de qualificação como comunista, coletivista, mutualista, ou individualista. Para outros, . . . isto simplesmtente significa uma atitude de tolerancia e de coexistência diante das diferentes escolas anarquistas.» [Anarchist Ideology and the Working Class Movement in Spain, 1868-1898, p. 135]. O criador dessa expressão foi o cubano Fernando Tarrida del Marmol que a utilizou em novembro de 1889 em Barcelona. Ele dirigiu suas palavras aos anarquistas comunistas e coletivistas na Espanha os quais a cada dia que passava acirravam cada vea mais os debates sobre os méritos de suas respectivas teorias. «Anarquismo sem adjetivos» era uma tentativa de mostrar grande tolerância entre as tendências anarquistas e deixar claro que os anarquistas não imporiam um plano econômico preconcebido em cima de ninguém-mesmo em teoria. Essas preferências econômicas dos anarquistas seriam de uma «importancia secundária» diante da abolição do capitalismo e do estado, e através da livre experimentação com base em uma sociedade livre. Esta perspectiva teórica conhecida como «anarquismo sin adjetives» foi produto de um intenso debate no meio do próprio movimento. As raízes deste argumento podem ser encontradas no desenvolvimento do Anarco-comunismo depois da morte de Bakunin em 1876. De forma não muito diferente dos anarco-coletivistas (como pode ser visto na famosa obra de James Guillaume «On Building the New Social Order» na referência a Bakunin on Anarchism, os coletivistas não concebiam seu sistema econômico envolvido com um livre comunismo), os anarco-comunistas desenvolveram, produziram e enriqueceram a obra de Bakunin, da mesma forma que Bakunin desenvolveu, produziu e enriqueceu a obra de Proudhon. Os Anarco-comunistas se associaram com anarquistas como Elisee Reclus, Carlo Cafiero, Errico Malatesta e (o mais famoso) Peter Kropotkin. Rapidamente, as idéias anarco-comunistas se espalharam entre os anarco-coletivistas como a mais forte tendencia na Europa, exceto na Espanha. Aqui o assunto principal não foi a questão do comunismo (Ricardo Mella é um caso a parte) mas uma questão de modificação da estratégia e da tática influenciada pelos anarco-comunistas. Nessa época (1880 e anos seguintes), os anarco-comunistas se dedicaram a estabelecer células locais de militantes anarquistas, geralmente em oposição ao sindicalismo (embora Kropotkin não tenha sido um desses pois reconhecia a importancia dos trabalhadores nessas organizações) quando não adotavam uma postura anti-organização. Como era de se esperar, após muitas discussões mudaram de estratégia e de tática diante dos coletivistas espanhóis que apoiavam vigorosamente a organização e a luta da classe trabalhadora. Este conflito logo se espalhou para fora da Espanha e a discussão encontrou seu caminho nas páginas do La Revolte em Paris. Isto fez com que muitos anarquistas concordassem com os argumentos de Malatesta que «não cabe a nós a palavra final, tudo não passaria de uma mera hipótese.» [quoted by Max Nettlau, A Short History of Anarchism, pp. 198-9]. Com o passar do tempo , a maioria dos anarquistas concordaram (usando as palavras de Nettlau) que «não podemos prever o desenvolvimento econômico do futuro» [Op. Cit., p. 201] e chegaram à conclusão de que aquilo que tinham em comum (oposição ao capitalismo e ao estado) era mais importante que suas diferentes visões de como uma sociedade livre deveria funcionar. Com o passar do tempo, a maioria dos anarco-comunistas viram que ignorar o movimento operário não enriqueceria a classe trabalhadora e que embora divergindo dos anarco-coletivistas, todos estariam juntos, lado a a lado, após a revolução. De forma semelhante, nos Estados Unidos o debate foi ainda mais intenso entre os anarco-comunistas e os individualistas. Benjamin Turcker chegou a dizer que os anarco-comunistas não erama anarquistas enquanto que John Most dizia quase a mesma coisa sobre as idéias de Tucker. Apenas pessoas como Mella e Tarrida defendiam a idéia da tolerancia entre os grupos anarquistas, segundo Voltairine de Cleyre «chame a você mesmo apenas de ‘anarquista’ e procure como Malatesta por um ‘anarquismo sem adjetivos’, mesmo na ausência de governo muitos diferentes projetos experimentais provavelmente serão implementados nas mais variadas localidades até que se encontre o caminho mais apropriado.» [Peter Marshall, Demanding the Impossible, p. 393] Tais debates tiveram um profundo impacto no movimento anarquista, conforme pode ser verificado em anarquistas como Cleyre, Malatesta, Nettlau e Reclus que adotaram a perspectiva da tolerancia incorporada na expressão «anarquismo sem adjetivos» (veja A Short History of Anarchism de Nettlau, pags. 195 a 201, um excelente resumo deste tema). Importante destacar também, a posição dominante dentro do movimento anarquista hoje é de que a maioria dos anarquistas reconhecem o direito das outras tendências ao nome «anarquista» tendo, obviamente, suas próprias preferências para com relação a tipos específicos de teoria anarquista e seus próprios argumentos que as justifiquem. Contudo, é importante lembrar que as diferentes formas de anarquismo (comunismo, sindicalismo, religioso, etc) não são mutuamente exclusivas e você não é obrigado a apoiar nem a combater ninguém. Esta tolerância se reflete na expressão «anarquismo sem adjetivos». Para finalizar, alguns «anarco»-capitalistas estão tentando usar a tolerância associada com «anarquismo sem adjetivos» para justificar que sua ideologia seria aceita como parte do movimento anarquista. Ora, eles afirmam, anarquismo é apenas e tão somente se opor ao estado, questões econômicas são questões secundárias. Contudo, o uso de «anarquismo sem adjetivos» é válido desde que o tipo de economia a ser alcançada seja anti-capitalista (i.e. socialista). Em outras palavras, o fato é que o capitalismo tem que ser abolido tanto quanto o estado e uma vez feito isso o próximo passo será desenvolver a livre experimentação. Explicando melhor, a luta contra o estado é apenas uma parte da dura luta pelo fim da opressão e da exploração e não pode ser isolada delas. Como os «anarco»-capitalistas não desejam a abolição do capitalismo tanto quanto o estado eles não são nem anarquistas nem «anarquistas sem adjetivos» nem tampouco podem se proclamar «anarquistas» capitalistas (veja section F sobre porque o «anarco»-capitalismo não é anarquismo).
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